Jesus promete que quando vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, ele se assentará em seu trono glorioso (Mt 25,31). Mas, é possível reconhecermos um Deus glorioso através do Cristo humano?
Jesus vem nos ensinar que para Deus é fundamental olharmos com o coração.
O Messias podia ter nascido no mais alto trono de sua época, afinal estamos falando do “Cristo, o filho de Deus Vivo” (Mt 16,16). Mais provável ainda que Jesus tivesse vindo como um rei de Israel, como Saul, Davi ou Salomão. Talvez pudesse ser um Sumo Sacerdote, ou pertencer a qualquer outro cargo de alto escalão da sua época. Porém não foi isso que aconteceu. Deus reverteu tudo. Jesus foi um pequenino. Nasceu numa manjedoura, era filho de um carpinteiro, sua mãe e seu pai (adotivo) tiveram que se mudar às pressas quando Ele era bebê para que não o matassem. Sendo assim, o que Deus quer com este paradoxo? Ele quer que enxerguemos com o coração, ou seja, enxerguemos além das aparências. A coroa de Cristo não está em sua cabeça, em suas vestes ou em grandes posses de terras. Sua coroa está no coração.
Se pensarmos bem, o olhar dos judeus, a princípio, não é muito diferente daquele que teríamos nos nossos dias. Foi prometido um Messias que libertaria o povo de Israel e que instauraria a glória de Deus na terra. Quem de nós esperaríamos um pobre, filho de um carpinteiro que nasceu numa cidadezinha desvalorizada, afinal “de Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1, 46). Porém, quando Jesus demonstra o seu amor, ou seja, quando Ele demonstra sua coroa, é digno de reconhecimento. Se pararmos para observar, os milagres de Jesus são atitudes que libertam: cura leprosos (excluídos da sociedade), expulsa demônios de pessoas que eram tidas como loucas, ultrapassa a divisão política entre judeus e samaritanos, perdoa uma prostituta e chama para ser um de seus seguidores um cobrador de impostos. Em todos esses exemplos, Ele demonstra que o Amor é mais valioso que qualquer outra riqueza. Essa riqueza foi incompreendida pelos fariseus. E se fosse hoje, agiríamos diferente? O erro dos fariseus é, em sua essência, o mesmo que cometemos, um apego excessivo ao sentido visual e material. Discriminamos as pessoas pelas suas posses, ficamos impressionados com a capacidade de compra dos ricos, pelo que vestem, seus carros, sapatos e acessórios da moda, grau de estudo que é titulado (mestre, doutor, Phd), etc.
O objetivo aqui também não é discriminar os ricos, pois Jesus não fez isso. Observemos a diferença de duas figuras presentes no Evangelho. O jovem rico (Mt 19, 16-22) não teve coragem de abandonar suas posses, suas idéias preconcebidas diante do chamado de Cristo. Ele era uma pessoa boa, seguia os mandamentos, mas diante da proposta feita por Jesus após o seu encontro não teve coragem de confiar à vida a Deus. Já Mateus, o cobrador de impostos mudou seus paradigmas e seguiu o Mestre. E ao visitar a casa de Mateus, Jesus sentou-se com os publicanos e pecadores (Mt 9, 9-10). Isso foi motivo de escândalo para os fariseus.
Percebemos então que Deus não nos acusa pela situação em que vivemos antes do nosso encontro pessoal. Ele olha a minha coragem de mudar, minha perseverança na conversão, a partir do nosso encontro. O encontro com Jesus, assim como na história, marca nossa vida num Antes e Depois de Cristo (a.C. / d.C.). A partir daí sou convidado a olhar com o coração, ou seja, a capacidade que tenho em amar a Deus e ao próximo antes de julgá-lo. Como bem disse Madre Teresa de Calcutá “Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”. Nesse sentido cabe falarmos sobre um outro tipo de julgamento que fazemos: muitas vezes não nos aproximamos de Cristo por aversão às pessoas que estão na Igreja (padres, grupos, pessoas que estão à frente). Concordo que esperamos dessas pessoas um testemunho de santidade e acolhimento e nem sempre é o que encontramos. Porém isso não pode impedir que eu atenda ao chamado de estar diante do amor ardente que brota do coração de Deus, amor que faz a cada um de nós um chamado íntimo. Ou seja, estamos falando de algo muito maior que um mero relacionamento entre pessoas. Falamos em aderir ao projeto de um Deus que é amor e que a todo momento dirige a você dizendo: “Eu te amo!”. Seja pela natureza, pelas circunstâncias do dia-a-dia, Deus te acompanha e te conforta a todo instante. Não permita que algo superficial o impeça de “mergulhar nas profundezas do Espírito de Deus”. Os fariseus erraram quando se detiveram no simples fato de Jesus sentar entre os pecadores. Ao invés de darem o próximo passo e contemplarem a mais bela coroa que um rei pode ter, a coroa de um Sagrado Coração, optaram por blasfemar e condenar a atitude do Messias. Por conseqüência não repousaram seu coração. Pois como disse Santo Agostinho “Fizeste-nos para Ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti”.
Somos chamados por São Paulo a sermos imitadores de Cristo (Ef 5, 1). É lógico que a nossa mudança, por mais radical que seja, não é instantânea, pois o instantâneo é rápido e passageiro. Pelo contrário, muitas vezes demoramos mais do que gostaríamos para tornarmos semelhantes a Cristo. Mas é necessário darmos o primeiro passo e acreditar na intervenção de Deus em nós. Pois é por Cristo, com Cristo e em Cristo que somos chamados e capacitados a imitá-lo.
Que Deus nos conceda esse dom precioso de olharmos a vida e ao próximo com os olhos do coração!
por Eliel Lemos Cardoso
Grupo de Jovens DDD