domingo, 9 de setembro de 2012

Tarde Te Amei!...

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde demais eu te amei!
Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!
Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas.
Estavas comigo, mas eu não estava contigo.
Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem.
Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez.
Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira.
Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti.
Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz...
Santo Agostinho

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Olhar com o coração



 Jesus promete que quando vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, ele se assentará em seu trono glorioso (Mt 25,31). Mas, é possível reconhecermos um Deus glorioso através do Cristo humano?

Jesus vem nos ensinar que para Deus é fundamental olharmos com o coração.

O Messias podia ter nascido no mais alto trono de sua época, afinal estamos falando do “Cristo, o filho de Deus Vivo” (Mt 16,16). Mais provável ainda que Jesus tivesse vindo como um rei de Israel, como Saul, Davi ou Salomão. Talvez pudesse ser um Sumo Sacerdote, ou pertencer a qualquer outro cargo de alto escalão da sua época. Porém não foi isso que aconteceu. Deus reverteu tudo. Jesus foi um pequenino. Nasceu numa manjedoura, era filho de um carpinteiro, sua mãe e seu pai (adotivo) tiveram que se mudar às pressas quando Ele era bebê para que não o matassem. Sendo assim, o que Deus quer com este paradoxo? Ele quer que enxerguemos com o coração, ou seja, enxerguemos além das aparências. A coroa de Cristo não está em sua cabeça, em suas vestes ou em grandes posses de terras. Sua coroa está no coração.
Se pensarmos bem, o olhar dos judeus, a princípio, não é muito diferente daquele que teríamos nos nossos dias. Foi prometido um Messias que libertaria o povo de Israel e que instauraria a glória de Deus na terra. Quem de nós esperaríamos um pobre, filho de um carpinteiro que nasceu numa cidadezinha desvalorizada, afinal “de Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1, 46). Porém, quando Jesus demonstra o seu amor, ou seja, quando Ele demonstra sua coroa, é digno de reconhecimento. Se pararmos para observar, os milagres de Jesus são atitudes que libertam: cura leprosos (excluídos da sociedade), expulsa demônios de pessoas que eram tidas como loucas, ultrapassa a divisão política entre judeus e samaritanos, perdoa uma prostituta e chama para ser um de seus seguidores um cobrador de impostos. Em todos esses exemplos, Ele demonstra que o Amor é mais valioso que qualquer outra riqueza. Essa riqueza foi incompreendida pelos fariseus. E se fosse hoje, agiríamos diferente? O erro dos fariseus é, em sua essência, o mesmo que cometemos, um apego excessivo ao sentido visual e material. Discriminamos as pessoas pelas suas posses, ficamos impressionados com a capacidade de compra dos ricos, pelo que vestem, seus carros, sapatos e acessórios da moda, grau de estudo que é titulado (mestre, doutor, Phd), etc.
O objetivo aqui também não é discriminar os ricos, pois Jesus não fez isso. Observemos a diferença de duas figuras presentes no Evangelho. O jovem rico (Mt 19, 16-22) não teve coragem de abandonar suas posses, suas idéias preconcebidas diante do chamado de Cristo. Ele era uma pessoa boa, seguia os mandamentos, mas diante da proposta feita por Jesus após o seu encontro não teve coragem de confiar à vida a Deus. Já Mateus, o cobrador de impostos mudou seus paradigmas e seguiu o Mestre. E ao visitar a casa de Mateus, Jesus sentou-se com os publicanos e pecadores (Mt 9, 9-10). Isso foi motivo de escândalo para os fariseus.
Percebemos então que Deus não nos acusa pela situação em que vivemos antes do nosso encontro pessoal. Ele olha a minha coragem de mudar, minha perseverança na conversão, a partir do nosso encontro. O encontro com Jesus, assim como na história, marca nossa vida num Antes e Depois de Cristo (a.C. / d.C.). A partir daí sou convidado a olhar com o coração, ou seja, a capacidade que tenho em amar a Deus e ao próximo antes de julgá-lo. Como bem disse Madre Teresa de Calcutá “Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”. Nesse sentido cabe falarmos sobre um outro tipo de julgamento que fazemos: muitas vezes não nos aproximamos de Cristo por aversão às pessoas que estão na Igreja (padres, grupos, pessoas que estão à frente). Concordo que esperamos dessas pessoas um testemunho de santidade e acolhimento e nem sempre é o que encontramos. Porém isso não pode impedir que eu atenda ao chamado de estar diante do amor ardente que brota do coração de Deus, amor que faz a cada um de nós um chamado íntimo. Ou seja, estamos falando de algo muito maior que um mero relacionamento entre pessoas. Falamos em aderir ao projeto de um Deus que é amor e que a todo momento dirige a você dizendo: “Eu te amo!”. Seja pela natureza, pelas circunstâncias do dia-a-dia, Deus te acompanha e te conforta a todo instante. Não permita que algo superficial o impeça de “mergulhar nas profundezas do Espírito de Deus”. Os fariseus erraram quando se detiveram no simples fato de Jesus sentar entre os pecadores. Ao invés de darem o próximo passo e contemplarem a mais bela coroa que um rei pode ter, a coroa de um Sagrado Coração, optaram por blasfemar e condenar a atitude do Messias. Por conseqüência não repousaram seu coração. Pois como disse Santo Agostinho “Fizeste-nos para Ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti”.
Somos chamados por São Paulo a sermos imitadores de Cristo (Ef 5, 1). É lógico que a nossa mudança, por mais radical que seja, não é instantânea, pois o instantâneo é rápido e passageiro. Pelo contrário, muitas vezes demoramos mais do que gostaríamos para tornarmos semelhantes a Cristo. Mas é necessário darmos o primeiro passo e acreditar na intervenção de Deus em nós. Pois é por Cristo, com Cristo e em Cristo que somos chamados e capacitados a imitá-lo.

Que Deus nos conceda esse dom precioso de olharmos a vida e ao próximo com os olhos do coração!

por Eliel Lemos Cardoso
Grupo de Jovens DDD

Testemunho


Eugênia Moreira

Eu só queria dizer muito obrigada! 
Havia muito que eu não sentia o que estou sentindo! Gente, é uma alegria tão grande que transborda... é um amor inexplicável! É uma força, sabe... Uma vontade de fazer diferente, de lutar por Deus! E é por isso que eu quero agradecer vocês, DDD. Muito obrigada por terem sido instrumentos de Deus para tamanha graça acontecer! Obrigada por todo esforço e dedicação comigo e com cada jovem que ali estava! O que eu senti nesse encontrão, ficará marcado em minha história. Que Deus regue em nós, todo dia, essa semente maravilhosa que foi lançada em nossos corações! Deus abençoe... Obrigada, amo vocês!

terça-feira, 3 de julho de 2012

O que a fé de São Tomé nos ensina?

http://www.portal.ecclesia.pt/ecclesiaout/catequeseguarda/images/esperanca.jpg
Muitos consideram São Tomé como o padroeiro da nossa geração. Somos filhos da modernidade, que nos ensinou que pensamos e logo existimos, através do mestre Descartes, filósofo francês, que apesar de acreditar em Deus, não abdicava de sua razão para tudo.

A experiência que São Tomé fez da ressurreição de Jesus de Nazaré, seu companheiro, seu mestre, em quem acreditou a ponto de largar tudo para segui-lo, poderia nos mostrar que o erro de Descartes é não ter percebido que Deus é um mistério de amor e salvação e não um mistério que a lógica humana pode decifrar.

O primeiro erro de Tomé foi ter se afastado da comunidade quando lhe sobreveio a desolação suprema do fracasso e da morte de Jesus.  Assim, estando longe, não estava perto dos companheiros quando Jesus lhes apareceu ressuscitado atravessando portas fechadas e paredes espessas, trazendo-lhes o dom da paz que os encheu de nova confiança e lhes confortou os corações, expulsando deles o medo e a incredulidade.

Avisado pelos outros, deslumbrados pela descoberta de que Jesus, que haviam visto morrer, estava vivo, Tomé dá uma resposta que bem podia ser nossa diante das coisas que não conseguimos circunscrever com nossa cabeça e nossa razão.  Tomé diz que se não tocar com suas próprias mãos as chagas que os pregos fizeram nas mãos de Jesus, se não puder colocar sua mão no lado traspassado pela lança do soldado, não acreditará.  Precisa ver para crer.  Precisa que a evidência lhe penetre pelos sentidos, senão não dará sua adesão àquilo que outros lhe contaram.

Tomé é como nós, que precisamos das evidências objetivas e das comprovações empíricas  para acreditarmos.  E como Deus não age nem se manifesta nesta linha, mas só se pode encontra-lo na gratuidade do desejo e do amor , achamos que Ele não existe, ou que se esqueceu de nós, ou que é uma coisa inventada pela humanidade para suportar a dureza da vida, ou que é uma projeção de nossas carências e frustrações.  Secretamente, talvez seja isso que Tomé haja pensado e sentido:  “esses aí estão tão loucos e desesperados que agora inventaram isso para se consolar mutuamente.  Como vou acreditar nisso, eu que sei que a morte é o único lugar de onde não se volta?”

A beleza do texto evangélico que vai nos mostrar o Ressuscitado aparecendo novamente aos onze, desta vez com a presença de Tomé, residirá no fato de que não só a misericórdia do Crucificado agora glorificado dará a Tomé o que ele pede. Mas lhe dará muito mais do que jamais pôde imaginar.  É novamente Deus que desconcerta a arrogância do ser humano apresentando-se humilde, oferecendo-se amoroso, buscando –o para atraí-lo novamente desde sua soberba à comunhão de seu amor. Em lugar de repreender Tomé e fulmina-lo com o esplendor de sua glória, mansamente lhe coloca ao alcance a experiência inefável de tocar as marcas de sua dolorosíssima Paixão, agora glorificada pelo poder de Deus a fim de que sua fé seja novamente despertada do torpor em que se encontrava.  E convida: “ Toca minhas chagas .  Mete a mão em meu lado.  E não sejas incrédulo, mas fiel”.

Tomé perde completamente sua postura arrogante e o que vemos agora é um homem sadiamente humilhado pela revelação da dureza de seu coração, de sua descrença, de seu orgulho,  que cai de joelhos e faz uma humilde confissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”.

O Ressuscitado continua pedagogicamente seu diálogo com Tomé estendendo o que quis ensinar a este a todos os que , depois dele, serão submetidos às mesmas dúvidas e às mesmas tentações: “Tu creste, Tomé, porque viste.  Bem aventurados os que não viram e creram.”

Peçamos a intercessão de São Tomé para ver se nossa fé aumenta um pouquinho e se curvamos um pouco nossa arrogância que exige sinais, provas e comprovações de tudo que acontece ou deixa de acontecer em nossa vida.  Que o Evangelho da fé provada e posta à prova, mas também amorosamente confirmada de São Tomé possa nos ensinar que Deus está disposto a tudo para nos atrair a sua intimidade.  A tudo, até mesmo a ceder a nossas um tanto estúpidas exigências.

Mas é importante aprender também que , neste mundo onde tudo se prova e se comprova, até mesmo violentamente; onde quem não tem um papel de identidade simplesmente não existe; onde velhinhos doentes são obrigados a sair de suas casas sob um sol causticante a fim de comprovar que estão vivos e receber uma magra aposentadoria; é importante viver a bem-aventurança de crer sem ver.  Crer que  - como dizia o grande escritor João Guimarães Rosa – quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.  Crer na palavra e no testemunho dos outros quando nos falam de Deus, de seu amor e sua bondade, embora não o estejamos experimentando a nível sensível.  Crer que Deus está disposto a qualquer coisa, - mas qualquer coisa mesmo – para ir buscar-nos na distância mais longínqua onde nosso pecado e nossa soberba nos tenha colocado.

É por isso que a devoção da Igreja, sabiamente, nos oferece como possibilidade humilde e adorante repetir no momento da consagração, na missa , as palavras de Tomé.  Quando o sacerdote repete as palavras da instituição da Eucaristia: “Isto é meu corpo. Isto é meu sangue” somos carinhosamente convidados pela Mãe Igreja a dizer em nosso coração a oração de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”.  E a esperar que a graça incomensurável do amor desse Deus que ressuscitou Seu Filho da morte e desse Filho que se dá em comida e bebida para nosso alimento comoverá nosso coração, curvará nossa dura cerviz e aumentará nossa fé. 

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
por Maria Clara Lucchetti Bingemer
site:www.universocatolico.com.br

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Onde está sua riqueza, aí estará o seu coração

Riquezas do coração
Continuamos nossa reflexão sobre as bem-aventuranças. O Evangelho de hoje nos faz duas recomendações sobre como devemos nos relacionar e usar os bens materiais.
Nos quarenta anos de deserto, o povo foi provado para ver se era capaz de observar a lei de Deus (Êxodo 16,4). A prova consistia na capacidade de recolher só o necessário de maná para cada dia, e não acumulá-lo para o dia seguinte.
Hoje, nessa mesma linha, Jesus nos diz: "Não acumuleis riquezas aqui na terra, onde as traças e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e roubam" (Mateus 6,19).
O que significa acumular tesouros no céu? Trata-se de saber de onde viemos, o que fazemos aqui na terra e para onde vamos. Descobrir qual o fundamento da nossa existência e, nela, colocar a nossa confiança. Se a depositarmos nos bens materiais desta terra, sempre correremos o risco de perder o que acumulamos. Porém, se eles forem depositados em Deus, ninguém vai poder destruí-los e teremos a liberdade interior de partilhar com os outros os bens que possuímos.
Para que isto seja possível e visível, é importante que criemos uma convivência comunitária, a qual favoreça a partilha e a ajuda mútua, e na qual a maior riqueza ou tesouro não será a material, mas sim da convivência fraterna, nascida a partir da certeza trazida por Jesus de que Deus é o meu Pai e de todos. E se Ele é nosso Pai, todos nós somos irmãos.
A lâmpada do corpo são nossos olhos, pois, como disse Jesus, "os olhos são como uma luz para o corpo". Mas para entender o que Ele nos pede é necessário ter "olhos novos". O Senhor é exigente e nos pede para não acumularmos riquezas nem não servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo. Estas recomendações tratam daquela parte da vida humana, na qual as pessoas têm mais angústias e preocupações. É urgente que tenhamos olhos lúcidos, porque, se eles estiverem doentes, todo nosso corpo estará também debilitado.
Na realidade, a pior doença que podemos imaginar é quando uma pessoa se fecha sobre si mesma, sobre seus bens e confia só neles. É a doença da tibieza, da mesquinhez. Quem olha a vida com esse olhar vive na tristeza e na escuridão. O remédio para curar esta doença é a conversão, a mudança de mentalidade e de ideologia. Colocando o fundamento da vida em Deus, o olhar se torna generoso e a vida toda se torna luminosa, pois faz nascer a partilha e a fraternidade.
Jesus quer uma mudança radical, quer que vivamos como Deus. A imitação do Senhor nos leva à partilha justa dos bens e ao amor criativo, aquele que gera fraternidade verdadeira.
"Onde está sua riqueza, aí estará o seu coração." Onde estão as nossas riqueza? Muitas pessoas idolatram o marido, a esposa, os filhos ou parentes, colocando-os acima de Deus. Outras colocam, em primeiro lugar, o dinheiro, os bens matérias, mas relegam para o segundo – ou o último lugar – Deus e a família. Esquecem-se de que é no Senhor e no amor ao próximo que está a fonte da vida.
Meu irmão, minha irmã, a vocês me dirijo e lhes pergunto: "Que luz vocês têm como referência? Para onde direcionam os seus olhos? Para as coisas do mundo ou para o Círio Pascal, fonte da luz sem ocaso? Ele é a luz no mundo, quem O segue não se engana nem na vida nem na morte.

Padre Bantu Mendonça